quinta-feira, 30 de janeiro de 2025

A culpa é da mãe:



Os analistas, psicólogos e as pessoas em geral brincam, em tom de chiste: a culpa é da mãe - já matou a mãe? Dito assim, parece piada velha, um clichê esvaziado pelo uso. Mas, se um especialista em parentalidade ouvir essa frase, pode até rir e dizer que isso não tem nada a ver. E, no entanto, tem tudo a ver.


A relação entre mãe e filho se tece de forma tão profunda que, mesmo quando não se fala dela, ela está lá, subterrânea, moldando afetos, reações, silêncios. No Brasil, essa troca se desenha com traços marcados, quase melodramáticos. Os filhos, quando falam de suas mães, tendem a seguir alguns roteiros fixos. Há aqueles que as colocam num altar: minha mãe é tudo para mim, fiz tudo por ela, devo tudo a ela. Esse discurso ressoa entre jogadores de futebol, entre encarcerados, entre aqueles que tiveram a experiência de ver a mãe como único eixo possível da vida. E há o outro extremo: minha mãe deve tudo a mim, porque sempre fez tudo por mim. Esse filho não apenas recebeu tudo — aprendeu a esperar tudo. Ele não viu a mãe como um sujeito separado, mas como uma extensão das próprias necessidades. E nesse caminho há pouca margem para reciprocidade.


Aqui entra a figura da mãe eterna. Aquela que faz, que cuida, que nutre, que dá. Aquela que nunca cansa, nunca cobra, nunca recusa. E o que acontece com os filhos dessa mãe? Quando chega o momento de devolver, de retribuir, de assumir o papel do cuidado, eles recuam. Não porque não amam, mas porque sabem, melhor do que ninguém, o peso insuportável dessa função.


Esses filhos viram de perto a exaustão silenciosa. Sentiram o peso invisível nos gestos da mãe, no suspiro abafado, na comida  pronta, na roupa lavada que parecia surgir por mágica. Eles cresceram no conforto da presença que nunca falhava — e, por isso mesmo, aprenderam que essa presença era um fardo. Amar, na lógica deles, significaria ocupar esse mesmo lugar de sacrifício. E eles não querem.


O que fazer então? Fugir. Evitar. Esquecer. Melhor não criar laços que cobrem devolução. Melhor não entrar no jogo das expectativas afetivas. Porque o amor, para eles, foi aprendido como um ato de servir, e ninguém quer ser engolido por isso.


Mas a mãe eterna envelhece. O corpo que sempre sustentou, que sempre protegeu, começa a fraquejar. E, quando ela finalmente precisa, quando já não pode mais oferecer tudo o que sempre deu, descobre o silêncio. Descobre que não ensinou seus filhos a cuidar, porque nunca permitiu que eles percebessem que ela também precisava.


Talvez a única saída fosse essa mãe aprender a faltar. Aprender a se permitir descansar. Aprender a existir além da função de dar. Mas como pedir isso a alguém que passou a vida toda sendo fortaleza?


O problema talvez não seja a mãe eterna, mas a ideia de que ela precisa ser eterna. O verdadeiro cuidado não está em dar tudo, mas em ensinar que o amor não é serviço, que o afeto não pode ser moeda de troca e que, para existir um laço verdadeiro, é preciso haver espaço para a reciprocidade — não como obrigação, mas como escolha.


É quase a morte…


Porque para essa mãe admitir que precisa, que cansa, que fraqueja, é como desmoronar tudo o que ela foi. É perder o único lugar que conheceu, o único que lhe garantiu existência. E, para muitos filhos, ver essa mãe nesse estado também é insuportável, porque significa encarar algo que eles sempre evitaram: a finitude dela, a dívida impagável, a fragilidade de quem um dia foi inabalável.


A mãe eterna não ensinou os filhos a cuidar porque nunca soube ser cuidada. Não soube pedir, não soube precisar, não soube existir fora da lógica do dar. E quando, por força do tempo, o corpo já não obedece, quando as mãos antes incansáveis começam a tremer, quando a casa já não se organiza sozinha, a única coisa que resta é o vazio. A impotência diante dos filhos que não aprenderam a retribuir e que agora, diante dela, também não sabem o que fazer.


Talvez, para muitos, a única forma de aprender seja tardiamente, quando a ausência já se impôs. Quando a mãe eterna não está mais ali para dar tudo de si, e o filho, pela primeira vez, sente o que é a falta. Mas há um detalhe cruel: alguns desses filhos, mesmo então, continuarão sem saber como ocupar esse espaço. Porque, no fundo, nunca aprenderam a trocar. Só conhecem o amor como algo que se recebe, ou como algo que se doa até se anular. E, diante disso, acabam escolhendo a fuga.


Então, sim, para essa mãe, mostrar-se vulnerável é um pouco morrer. É perder o poder de ser indispensável, de ser necessária. Mas talvez seja nessa quase-morte que resida a única chance de sobrevivência — para ela e para os filhos. Porque, se ela pudesse permitir-se ser outra coisa além de uma presença absoluta, talvez seus filhos pudessem aprender a amá-la de outra forma. Não como um altar, não como um serviço, mas como um laço real, humano, possível.



Cláudia Freire, psicanalista e especialista em Saúde Mental, com foco na análise de discursos limítrofes e na articulação entre subjetividade de sociedade.

Instituições: PUC, CEP, Sedes, Faculdade Médicas da Santa Casa de São Paulo.

claudiafreirelima@gmail.com

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